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Casoteca lança terceira parte da coletânea “Pintura de Guerra”

15/12/14 - A Casoteca de Gestão Pública da Escola Nacional de Administração Pública (Enap) finaliza os trabalhos do ano com o lançamento da terceira parte da coletânea de estudos de caso “Pintura de Guerra”. O objeto de aprendizagem foi escrito pela Historiadora e Servidora Pública Andrea Bello. A saga narra a história fictícia de Maria Cecília: mãe de gêmeos, divorciada, servidora concursada atuando na Administração Pública há mais de 20 anos e que enfrenta inúmeros desafios em seu cotidiano de trabalho.

Dando sequência aos estudos de caso “Pintura de Guerra I – Tomada de Decisão Individual e Organizacional” e “Pintura de Guerra II – Os Desafios da Governança Colaborativa”, o estudo de caso “Pintura de Guerra III – Um Caso de Choque Entre Culturas Organizacionais” apresenta agora Maria Cecília, como profissional experiente e bem sucedida, que se vê envolvida na execução de um novo desafio: supervisionar outro projeto de inclusão socioeconômica para mulheres, também em parceria com o terceiro setor. Contudo, o projeto encontra-se sob risco de descontinuidade, uma vez que os conflitos e as diferenças culturais emergem logo após o primeiro semestre de trabalho. Seu dilema é como equalizar as diferentes culturas organizacionais dos diversos atores envolvidos.

Na entrevista a seguir, Andrea Bello fala sobre o tema da coletânea “Pintura de Guerra”, sobre a metodologia de estudos de caso, bem como outros assuntos:

Enap - Quem é Andrea Bello?
Andrea Bello -
Devo confessar que, de todas as perguntas, essa é a mais difícil. Eu sou uma pessoa comum, com sonhos modestos, que adora aprender, que tem valores e princípios muito sólidos, que acredita na Administração Pública e no importante e fundamental papel dos(as) servidores(as) públicos(as) na construção de um país mais justo social e economicamente, que se orgulha de fazer parte desse grupo de pessoas e que é apaixonada pela sua família.

Enap - Como você e os estudos de caso se conheceram? Como, onde e por que tudo começou?
Andrea Bello
- A metodologia de estudos de caso me foi apresentada durante o Mestrado em Profissional em Administração Pública, na Fundação Getúlio Vargas – Rio de Janeiro (FGV/RJ). Na ocasião, tive o privilégio de estudar com a professora Elisabete Ferrarezi que coordenou a Casoteca da Enap durante muito tempo. Aprendi a lógica da construção de estudos de caso e, de imediato, gostei da proposta. Aliás, o trabalho de conclusão da disciplina era a elaboração de um estudo de caso. Foi aí que eu escrevi o "Pintura de Guerra I", mais tarde publicado pela Casoteca.

Enap - Como surgiu a ideia de escrever os casos denominados “Pintura de Guerra”?
Andrea Bello -
Como disse, o meu primeiro contato com a metodologia de estudos de caso se deu no mestrado e o meu foco de estudos já era a situação da mulher no mercado de trabalho, que viria a ser o fio condutor da escolha do tema da minha dissertação. No meu trabalho de conclusão do mestrado, eu abordo a evolução do Programa Pró Equidade de Gênero, no período de 2005 a 2013, e o papel deste no empoderamento das mulheres no mercado de trabalho e nos espaços de poder e tomada de decisão.

Desta forma, ao pensar sobre o meu primeiro estudo de caso, escolhi como protagonista uma mulher e decidi abordar alguns de seus desafios profissionais, sem deixar de lado sua vida pessoal, seus compromissos como mãe, suas angústias, dúvidas, erros e acertos, pois acho que o somatório dos nossos papéis - pessoais e profissionais - é o que nos define.

Enap - Por que o título “Pintura de Guerra”?

Andrea Bello - O mundo corporativo é, muitas vezes, um território hostil para as mulheres. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e do Fórum Econômico Mundial, por exemplo, demonstram que estamos longe da equidade entre os gêneros em diversos aspectos e o mundo do trabalho talvez seja o que está ainda mais distante do ideal. Há desde questões culturais até questões aparentemente simples que demonstram o quanto nossas organizações são masculinas e, em alguns casos, machistas. Por exemplo, mulheres ainda recebem menos do que os homens em funções análogas, o gerenciamento das carreiras em muitas organizações deixa de lado questões como a maternidade e a amamentação e, ainda hoje, algumas empresas precisam adequar suas instalações físicas à presença de mulheres, pois seus prédios foram pensados para a circulação somente de homens!

Nos espaços de poder e tomada de decisão, tanto no mundo corporativo quanto na política, nossa participação ainda é muito menor do que a dos homens. Desta forma, acredito que muitas mulheres, ao se arrumarem pela manhã, antes de tirarem algo do congelador para ser preparado no jantar, colocar roupa na máquina, deixar seus filhos na escola etc., se maquiam não como se fossem para um lugar onde são respeitadas e compreendidas, mas como se fossem para uma guerra, onde vence o mais forte, o mais agressivo, rápido e jovem. E sim "o", sem flexibilização do artigo, pois como já disse, o mundo ainda é muito masculino.

Enap - Fale um pouco sobre “Pintura de Guerra I” e “Pintura de Guerra II”.
Andrea Bello -
"Pintura de Guerra" é uma série que terá quatro estudos de caso, dois deles já publicados pela Casoteca. Eles abordam um período de cinco anos na vida de Maria Cecília que é uma servidora pública experiente, divorciada, com filhos e que está enfrentando alguns desafios que têm testado sua inteligência emocional, suas capacidades técnica e de avaliação de pessoas e situações. A partir desse pano de fundo "humanizado", os textos abordam questões teóricas como Processo Decisório, Governança Colaborativa, Cultura Organizacional, entre outros temas importantes e recorrentes no estudo de Administração Pública.

Enap - O que você destacaria na trajetória da protagonista Maria Cecília frente aos grandes desafios gerenciais em seu trabalho no serviço público?
Andrea Bello -
As questões que envolvem cultura organizacional. Maria Cecília vive um constante conflito entre aplicar seus conhecimentos de Administração Pública em cenários onde há muitos elementos aos quais ela não tem acesso e que interferem na tomada de decisão.

Enap - Quais são os temas mais abordados nesta coletânea?
Andrea Bello -
Processo Decisório, Governança Colaborativa, Cultura Organizacional, Gestão de Pessoas, Mediação de Conflitos, entre outros.

Enap - O que a experiência de Maria Cecília tem em comum com a realidade dos(as) servidores(as) públicos(as) brasileiros(as)?
Andrea Bello -
Eu sou suspeita para responder. Acho que é muito real, mas a resposta só será possível à medida que o "Pintura de Guerra" for aplicado e as pessoas forem dando retorno de suas impressões e críticas.

Enap - O que tem de Maria Cecília em Andrea Bello e vice versa?
Andrea Bello -
Maria Cecília é um "mix" de mulheres que conheci ao longo da minha vida profissional, por isso acho o personagem tão cativante. Porém, como já disse, eu sou suspeita para opinar. Para além disso, eu me identifico, principalmente, com a questão da dupla jornada e do zelo pela "coisa pública".

Enap - De que maneira a internet/Casoteca atua na sua vida de escritora?
Andrea Bello
- A internet é uma ferramenta de trabalho muito importante para pesquisas, mas não substitui o poder dos livros. A Casoteca eu considero um "farol" em um mar pouco explorado, no Brasil, que é o do uso de estudos de caso para ensino de Administração Pública - prática comum em outros países considerados exemplos nessa área. Acho que isso nos sinaliza algo importante.

É preciso rever o preconceito que alguns setores acadêmicos têm em relação ao uso e produção de estudos de caso, popularizando-os nos cursos de graduação e pós-graduação. Além disso, acredito que, na formação continuada de servidores(as) públicos(as), deveria ser fomentada não apenas a aplicação como também a elaboração de estudos de caso, pois o distanciamento necessário para a construção de um bom estudo de caso é muito saudável para um(a) profissional que deseja transformar uma experiência vivida em um texto para ser aplicado.

Enap - Como tornar o estudo de caso atrativo ao(à) leitor(a) comum?
Andrea Bello -
Em primeiro lugar, o estudo de caso não pode se afastar do seu propósito de aplicar teorias à prática e estimular a reflexão sobre o dia a dia das organizações. Em segundo, deve conter elementos que humanizem personagens e situações, temperado com um pouco de humor - quando apropriado - a fim de criar empatia no(a) leitor(a). Esses dois pontos devem estar equilibrados, pois se o texto for muito técnico, pode ser cansativo para um(a) servidor(a) que trabalha com aquilo todos os dias e está desmotivado(a), por exemplo. Se for muito dramatizado, pode comprometer sua função e perder a credibilidade como ferramenta de ensino-aprendizagem.


Outras Informações:
Casoteca de Gestão Pública da Enap
www.casoteca.enap.gov.br
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