Acesso Restrito a Professores



Autor de caso acredita que Casoteca pode auxiliar em situações de tragédia e calamidade

29/05/14 - Em comemoração aos três anos de Casoteca, neste mês de maio, a Escola Nacional de Administração Pública (ENAP) irá publicar pequenas histórias de pessoas que utilizam e ajudam a divulgar a metodologia do espaço virtual.

A Casoteca de Gestão Pública é um acervo virtual gratuito de estudos de caso sobre temas de interesse da administração pública que podem ser usados para o ensino e aprendizagem organizacional. Os estudos de caso são narrativas que apresentam um cenário que espelha a vida real, na qual decisões são tomadas e conclusões são feitas com base no contexto apresentado, para que os estudantes possam “praticar” a partir de problemas reais.

Região serrana do RJ

Autor do estudo de caso lançado no último mês de março, o advogado Jorge Gonçalves relata a tragédia ocorrida na região serrana do Estado do Rio de Janeiro em 2011. A história é verídica e foi presenciada de perto por Jorge que, na época, atuava como funcionário da Prefeitura Municipal de Teresópolis.

Nesta entrevista, Jorge explica a trajetória de elaboração do caso e porque acredita que contar essa história pode ser importante para evitar novas tragédias em situações de risco e calamidade.

Veja abaixo como Jorge Gonçalves utilizou a Casoteca para produzir este relato:

ENAP - Do que se trata o estudo de caso?
Jorge Gonçalves - Trata-se de questões jurídicas e administrativas a serem avaliadas em situações de crise e calamidades, tendo como case a calamidade ocorrida na região serrana no Rio de Janeiro, em janeiro de 2011.

ENAP - Como você teve a ideia de transformar essa experiência vivida em estudo de caso?
Jorge Gonçalves - A ideia decorreu após estímulo da Professora Elisabete Ferrarezi em aula de mestrado em administração pública da Fundação Getúlio Vargas (FGV).

ENAP
- Como foi relembrar a situação diversas vezes para colocá-la no papel e transformá-la em objeto de estudo?
Jorge Gonçalves - Relembrar um evento negativo nunca é bom, muito menos da proporção em que foi, mas esquecer ou tentar apagar a lembrança é impossível.

Entendo que lembrar com o propósito de extrair algo que possa ser proveitoso para outras pessoas, foi o bastante para deixar as emoções em segundo plano, superar as impressões e decidir fazer algo que gere algum legado.

Na verdade, a escolha em fazer o mestrado em administração pública - e não em um ramo do direito, que é a minha formação acadêmica - teve a calamidade como sua origem. Creio que estar naquele momento, nas condições profissionais em que me encontrava, no exato instante em que se deu a maior calamidade do País, me causou uma inquietação. Fez-me olhar o universo da gestão pública, por uma ótica menos legalista e mais funcional. Trouxe-me a responsabilidade de que deveria provocar modificações, no mínimo, na minha vida profissional. E se eu puder, de alguma forma, levar as pessoas do meu ciclo a pensar sobre isso, já provocaria modificações.

A possibilidade de aproveitar a vivência para outras ocasiões me traz a sensação de cumprir o papel que me foi designado. Esta é a minha forma de não deixar se perder o vivido, de extrair experiência e não ficar apenas com as lembranças trágicas.

Atualmente, ao emitir pareceres jurídicos, não mais os fundamento como normalmente fazia - apenas amparados na zona de conforto da lei e que costumavam a negar as ações, em especial, as que saiam da rotina ou que tentavam trazer inovações, como é o comum. Mudei a ótica e comecei a ver com bons olhos que, quem se expõe, quer fazer algo novo.

Sob essa visão, escrever o estudo de caso foi uma oportunidade ímpar. E, dentro do cenário foi parte relevante deste propósito pessoal.

ENAP
- Você acredita que o estudo de caso pode servir de base para outras situações de risco e calamidade? De que forma?
Jorge Gonçalves - Com certeza. Desejo levar pessoas a pensar, principalmente nas áreas de direito e de administração, de que as nossas normas são construídas para situações de normalidade e devem ser reavaliadas quanto a esta exceção. No Brasil e no mundo as incidências de calamidades e emergências tem se elevado nos últimos anos e algo deve ser feito em todos os sentidos - não somente na esfera da defesa civil, mas principalmente, em gestão pública.

O maior propósito é construir uma mentalidade que, aos poucos, provoque modificações semelhantes aos planos de guerra, onde a administração pública tenha um manual ou uma estratégia de reversão que possa, em um breve intervalo de tempo, adaptar suas rotinas de gestão a um modelo eficiente à situação e na urgência que se demanda. Deve-se lembrar que uma situação como esta pode acontecer em qualquer lugar, independente de causas.

Clique para ler “O caso do desastre da região serrana do Rio de Janeiro: São adequados os critérios adotados pela administração pública em uma situação de tragédia e calamidade?”

Outras informações
http://casoteca.enap.gov.br